Estoy a oír: Robin Sparkles – Sandcastles in the Sand

“Adorei sua blusa.”
O pedaço de papel caiu sobre o livro que Andréa estava lendo, pouco depois que as portas do metrô se fecharam. Num primeiro momento ela se sentiu compelida a ignorar, pensando que fosse mais um vendedor de balas oferecendo seus produtos.
Porém, a frase escrita em caligrafia obviamente apressada era algo completamente diferente. Levantou os olhos do livro e viu um simpático rapaz, vestindo jeans e uma camiseta dos Simpsons, equilibrando uma caneta e um bloco de papel numa das mãos enquanto se segurava com a outra.
Sem saber muito bem como reagir, ela balbuciou um “obrigada”, mas logo percebeu que seu admirador talvez não pudesse ouvi-la. Por um momento desejou ter prestado mais atenção ao breve curso de Libras que fizera na faculdade.
Não parecia ser o caso, já que ele sorriu e logo se pôs a escrever novamente.
“Garganta inflamada. Pode falar, te escuto perfeitamente.”
– Ah, tá – ela respondeu sorrindo, o que o motivou a escrever de novo.
“A propósito, belo sorriso.”
– Obrigada – à resposta, seguiu-se mais uma exibição do elogiado sorriso.
“Indo pra faculdade?”
Ela passou um instante se perguntando como ele tinha percebido, até concluir que se devia aos dois cadernos que Andréa trazia entre o livro e o colo.
– Isso mesmo.
“Que curso você faz?”
– Psicologia, terceiro semestre. Você faz faculdade também?
Com um balançar de cabeça, o rapaz negou.
“Formado faz tempo já”, ele escreveu, e assim que deu o bilhete para Andréa começou a trabalhar em outro. “Publicidade.”
Sacou da caneta para escrever algo mais, mas uma súbita freada do trem mudou suas prioridades imediatas.
Andréa não pôde deixar de reparar na expressão assustada que o rapaz fez logo antes de perder o equilíbrio, sendo forçado a se segurar com as duas mãos para não cair. Por um momento ela pensou em Charles Chaplin, questionando se o fato de não poder falar havia acentuado a expressividade de seu interlocutor. Teve que se conter para não rir.
– Paramos para aguardar a movimentação do trem à frente – anunciou a voz monocórdica do condutor. Enquanto isso, o rapaz se pôs de pé novamente, procurando se manter impassível. Andréa adotou uma expressão algo preocupada.
“Espero que ele não faça isso de novo”, escreveu, desenhando uma carinha feliz logo abaixo das palavras para deixar claro que ele não estava irritado.
– Ou que pelo menos avise antes. Tudo bem com você? – ela perguntou, enquanto o trem voltava a se mover.
“Tudo ótimo, foi só o susto.”
– Que bom.
“Não tinha reparado nos seus olhos. Azuis.”
– Eu sei que meus olhos são azuis – ela disse, sorrindo – Afinal, eu nasci com eles. E um monte de gente tem olhos azuis. Todo o elenco do Senhor dos Anéis, por exemplo.
A resposta sarcástica desagradou ao interlocutor de Andréa, que fez uma cara entre irritado e triste.
– Desculpa – ela disse, já que não podia desenhar carinhas felizes depois de suas palavras – É só que… droga, por que as pessoas têm que agir como se tivessem visto a Virgem Maria toda vez que topam com um par de olhos não-castanhos?!
“Olha pelo lado bom”. Antes mesmo que Andréa pudesse perguntar qual era o lado bom, outro bilhete lhe era entregue. “Há 500 anos, provavelmente gritariam ‘Bruxa! Bruxa!’ e te queimariam numa fogueira.”
– Sério que podiam me queimar só por que meus olhos são azuis?
”Talvez. Se você pesasse o mesmo que um pato.”
Para sorte do rapaz da garganta inflamada, Andréa era o tipo de garota que entende referências a Monty Python. Bem, o fato da blusa que ele elogiara reproduzir uma tira do Calvin era um forte indício disso.
“Agora, se eles fossem amarelados ou coisa assim…” Completou a frase fazendo um gesto de decapitação, colocando a língua para fora como forma de adicionar um ar tragicômico à afirmação.
Ela confirmou sua teoria da expressividade aumentada, e notou que estava se divertindo como não fazia há muito tempo nessa curiosa conversa de um lado só. Mas não pôde deixar de se sentir curiosa para ouvir a voz de seu interlocutor.
“Adorei conversar com você, mas tenho que ir”, ele rabiscou, apontando para a porta. “Desço na próxima estação”
Diante da perspectiva de se afastarem, Andréa pensou em passar-lhe seu telefone. Entretanto, percebeu que com a garganta daquele jeito poderiam se passar dias até que ele conseguisse ligar. Decidiu tomar uma medida de efeito mais imediato.
– Eu também – ela respondeu de bate-pronto, mesmo sabendo que a faculdade ficava a três estações dali. Desceram do metrô juntos, andando a passos tranquilos. No caminho, compraram uma caixa de pastilhas para a garganta.