Sala de Justiça

Um blog d'O Pensador Selvagem | in moto perpetuo, produzindo inconscientes

03/05/2013
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Preciosistas (Douglas Adams)

Preciosistas

Por Douglas Adams
Tradução de Tiago Andrade

Eventos significativos do milênio:

1º de janeiro de 1000 – Quase todos celebram o início do segundo milênio.
1º de janeiro de 1001 – Os preciosistas celebram o início do segundo milênio.

1º de janeiro de 1100 – Quase todos celebram o início do século XII.
1º de janeiro de 1101 – Os preciosistas celebram o início do século XII.

1º de janeiro de 1200 – Quase todos celebram o início do século XIII.
1º de janeiro de 1201 – Os preciosistas celebram o início do século XIII.

1º de janeiro de 1300 – Quase todos celebram o início do século XIV.
1º de janeiro de 1301 – Os preciosistas celebram o início do século XIV.

10 de junho de 1381 – A Revolta dos Preciosistas alcança Londres. (Ops, não é a Revolta dos Preciosistas, é a Revolta dos Camponeses. (sgd.) Um preciosismo. E sutilmente fechamos os parênteses. Obrigado.)

1º de janeiro de 1400 – Quase todos celebram o início do século XV.
1º de janeiro de 1401 – Os preciosistas celebram o início do século XV.

1º de janeiro de 1500 – Quase todos celebram o início do século XVI.
1º de janeiro de 1501 – Os preciosistas celebram o início do século XVI.

1º de janeiro de 1600 – Quase todos celebram o início do século XVII.
1º de janeiro de 1601 – As pessoas começam a ficar de saco cheio dos preciosistas.

1º de janeiro de 1700 – Quase todos celebram o início do século XVIII.
1º de janeiro de 1701 – Alguns preciosistas começam a reparar que preciosistas não dão festas muito boas.

1º de janeiro de 1800 – Quase todos celebram o início do século XIX. Um grupo rachado de ex-preciosistas muda de lado e enche a cara.
1º de janeiro de 1801 – O restante dos preciosistas celebra o início do século XIX.

1º de janeiro de 1900 – Quase todos celebram o início do século XX. É proibida a entrada de preciosistas.
1º de janeiro de 1901 – Os preciosistas organizam um festival de danças típicas.

24 de novembro de 1996 – O site Digital Village (N.T.: site que contratou Douglas Adams como “fantasista-chefe”) é lançado; o terceiro milênio chega mais cedo, pegando todos de surpresa.

1º de janeiro de 2000 – Qualquer um que sequer mencione a virada do milênio é amarrado com um garrote.
1º de janeiro de 2001 – Massacre dos preciosistas.

28/02/2013
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Scott Pilgrim contra o DLC

Estoy a oír: Ultraje a Rigor – Vamos Virar Japonês

Scott Pilgrim

Por algum motivo daqueles que ninguém entende, Scott Pilgrim vs. the World não permite partidas online.

O game, um beat’ em up adaptado do filme homônimo (embora seu visual seja mais semelhante à HQ que inspirou ambos), foi lançado em agosto de 2010. Praticamente todas as resenhas da época citaram a falta de um modo online como defeito mais grave do jogo. Alguns interpretaram essa falta como referência aos arcades dos anos 80 e 90, enquanto outros questionaram o interesse da Ubisoft em dedicar servidores a um título “menor”.

Fato é que, dois anos depois do lançamento, a empresa de Montpellier anunciou um pacote de conteúdo adicional para o jogo que incluiria a função online quer tanto fez falta. A decisão de cobrar por um modo extra quando o jogo praticamente só é vendido em liquidações foi recebida com estranheza pela comunidade gamer, mas calma que piora.

Desde o anúncio original, o DLC teve seu lançamento adiado pelo menos três vezes. A última mudança veio depois da acusação de que alguns sprites de Wallace Wells, personagem adicional que seria com o modo online (e um dos melhores personagens da história, o que reforça a reclamação de que esse conteúdo deveria ter sido incluído no game original) , teriam sido copiados de um jogo do Sonic para PSP.

Atualmente o pacote não tem data de lançamento prevista, e algumas fontes o consideram cancelado – embora a Ubisoft, diplomaticamente, tenha declarado que o adiamento se deve à necessidade de maior tempo para “ajustar o conteúdo às reações da comunidade jogadora”.

Ainda que o caso não tenha virado um desastre de reações públicas, acho que um bom jeito da empresa compensar o desgaste seria oferecer a atualização sem custo aos jogadores. Além de servir como pedido de desculpas, isso traria muito mais público para o jogo – somando jogadores que compraram o game na época do lançamento e os que o descobririam já com o novo modo.

Isso para não citar que um modo online pelo qual você cobra para entrar tende a ser bem mais vazio do que outro oferecido gratuitamente. Com o lucro que Assassin’s Creed dá, vamos combinar que dinheiro para isso os franceses têm, certo?

P.S.: uma observação adicional aleatória: minha irmã, grande fã da era dos 16 bits, resolveu jogar Scott Pilgrim vs. the World comigo numa tarde tediosa de domingo. Não conseguimos chegar até o final do game, mas ela gostou tanto que me proibiu de retomar a partida sozinho. Isso sintetiza bem o tipo de público que um jogo como esse pode atrair, certo?

12/12/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Minha namorada cheerleader tem uma máscara demoníaca – não, peraí…

Estoy a oír: Tony Basil – Hey Mickey

Finalmente joguei Lollipop Chainsaw, game que chamou minha atenção desde a divulgação dos primeiros trailers. Uma cheerleader enfrentando zumbis armada com uma motosserra, trazendo a cabeça do namorado presa na cintura?

(Detalhe: a tal cabeça não só ainda está consciente como fala com a voz de Michael Rosenbaum, o Lex Luthor de Smallville)

Isso é tão bizarro que deve ser sensacional, eu pensei.

Depois de enfim finalizar a história principal do jogo, não tenho como esconder um certo… incômodo. Não com os problemas de controle apontados em várias resenhas, mas com o fato de que eu já tinha jogado Lollipop Chainsaw poucos meses atrás.
Ou quase isso, já que o que tinha passado pelo meu PS3 era um jogo muitíssimo parecido: o remake moderno de Splatterhouse, clássico do Mega Drive. (E do qual você provavelmente se lembra como “aquele jogo com o cara que parece o Jason”.)

As semelhanças entre os dois games chegam a ser assustadoras. Tanto a irritantemente ingênua Juliet Starling quanto o grunge-brucutu Rick Taylor enfrentam uma legião de criaturas saídas das profundezas infernais, sempre acompanhados por um coadjuvante que passa o jogo todo fazendo comentários sarcásticos. Se no novo Splatterhouse sua companheira é a tradicional Máscara do Terror, agora dublada por Jim Cummings (o dublador americano de personagens como Tigrão e Darkwing Duck), Lollipop Chainsaw tem o namorado-pochete citado no começo.

Você poderia dizer que isso é uma coincidência – afinal, de Batman Arkham Asylum a Uncharted o que não falta nos videogames atuais são heróis seguindo este mesmo princípio. Mas as semelhanças aumentam. Os dois games têm os mesmos problemas de carregamento demorado, as lutas contra chefes são criativas mas pecam pela duração excessiva e você destrava mais habilidades especiais do que consegue usar ao longo do jogo.

Com o perdão do spoiler, até o plot twist final é idêntico: ao derrotar os vários adversários ao longo do jogo, Rick e Juliet estavam apenas satisfazendo aos planos dos respectivos oponentes. Com estes sacrifícios (até os termos usados são iguais), os antagonistas puderam concluir o ritual de abertura dos portões do inferno. É uma virada na trama muito engenhosa, sem dúvida, mas vê-la se repetir em dois títulos que já se pareciam em muita coisa foi uma coincidência tão grande que acabou por inspirar este texto.

Nenhum dos dois jogos se leva a sério, mas se há uma grande diferença entre eles é o seu tom. Lollipop Chainsaw é absurdo desde a premissa, e vai se tornando mais e mais surreal durante a sua curta campanha. Já Splatterhouse tem um humor negro mais sutil, típico de filmes de terror irrealmente grotescos.

Talvez essa simples diferença seja o que faz ambos merecerem atenção – ainda mais porque nenhum dos dois jogos deve tomar muito tempo nem mesmo do mais ávido caçador de troféus/conquistas.

17/11/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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E tem outra coisa… (Eoin Colfer)

Estoy a oír: Ira! – Vida Passageira

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“Eoin Colfer, tira essa toalha! Tira essa toalha que você não é mochileiro! Você é moleque!”

Douglas Adams morreu pensando em escrever mais uma continuação para sua obra mais famosa, O Guia do Mochileiro das Galáxias. O autor trabalhava num manuscrito (o inacabado The Salmon of Doubt) que pretendia transformar num sexto capítulo para a série, mas sua morte inesperada em 2001 parecia o fim para o universo do Guia. Ainda houve outros lançamentos, mas eram adaptações – como a versão para o cinema ou as séries de rádio baseadas nos livros finais.

Mas e se os novos capítulos fossem escritos por um sucessor de Adams? Seguindo uma tendência que já gerou continuações de séries como O Poderoso Chefão e 007, Eoin Colfer (autor da série Artemis Fowl) foi escolhido pela família do velho DNA para dar continuidade à saga de Arthur Dent e Ford Prefect. Anunciado com grande alarde na Inglaterra e no mundo, o livro quebrou paradigmas da série desde o título, que pela primeira vez não era uma citação do volume original.

Como era de se esperar, os fãs se dividiram entre os críticos inflamados da ideia de uma continuação com outro autor e os que ficaram curiosos para ver o que um autor que cresceu lendo o Guia teria a escrever com os personagens e situações mais bizarros da borda ocidental da galáxia. Pois bem, agora que finalmente coloquei minhas mãos no livro, dá para dizer que temos algo digno do legado que o mais dupal de todos os mingos construiu?

Afirmando categoricamente… não, não dá. Colfer caracteriza os personagens de forma impecável com relação ao que Adams criou, mas parece preocupado demais em agradar aos fãs mais radicais. O livro é muito arrastado em vários momentos, talvez resultado da quantidade exagerada de piadas e citações ao Guia. Essas sacadas (e a aleatoriedade de suas ocorrências) eram uma das marcas registradas de Douglas Adams, até porque ele sabia dosá-las de modo a manter o andamento fluido da trama. Já Colfer por várias vezes erra na mão, exagerando a ponto de atrapalhar a leitura.

A trama coloca Arthur, Ford, Trillian, Random Dent e Zaphod Beeblebrox juntamente com um dos personagens mais bem sacados criados por Adams: o irritado imortal Wowbagger, que parece enfim ter encontrado uma forma de morrer. No caminho, nossos heróis passarão por simulações de seus maiores desejos, enfrentarão provações impostas pelos deuses e encontrarão uma colônia humana em busca de um deus, além de um jovem vogon que deseja fugir das inclinações burocrático-destrutivas de sua raça.

Pena que tudo isso não resulte em muito mais do que uma divertida mas arrastada fanfic com aprovação oficial. É uma visita bem-vinda ao universo da série, mas a decisão de não escrever um “novo final definitivo” para a série é benéfica em mais de um sentido. Os fãs que conseguirem superar a raiva de uma continuação apócrifa devem curtir, mas vão querer matar a saudade dos originais depois de terminar.

14/11/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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O Valdeci

Estoy a oír: Oasis – Whatever

Há um Valdeci na vida de todos nós. É claro, nem sempre o nome dele é Valdeci, mas a ideia geral é a mesma.

O Valdeci é aquela pessoa para quem você liga, geralmente desesperado, quando seu chuveiro queima, você não sabe instalar o videogame que comprou pro seu filho ou coisas desse tipo – e o Valdeci logo chega, conserta o que quer que esteja quebrado (o Valdeci é sempre versátil; pinta paredes, troca resistências e espalha armadilhas para ratos com a mesma habilidade, sempre em menos tempo do que você levaria para sequer criar coragem e encarar a tarefa), toma um cafezinho, conversa por alguns minutos e se vai, sorrindo, enquanto você, constrangido, agradece dezenas de vezes.

O Valdeci vive numa casa não muito longe da sua, com uma simpática esposa e um casal de filhos já crescidos. O que ele faz da vida? Como está sempre disponível (“não mexe em nada que eu já tô indo praí”), quase sempre o Valdeci já se aposentou ou trabalha numa rotina incomum – seja em casa, poucas horas por dia ou à noite.

Pode-se, mesmo sem efetivamente ser um Valdeci, exercer esta função temporariamente. Você mesmo, leitor, já deve ter bancado o Valdeci para alguém, seja desentupindo a pia ou ajeitando a sintonia da TV. Aliás, uma das muitas frustrações da minha mãe com relação a mim é que, por mais galhos que consiga quebrar em casa, eu nunca tenha conseguido me tornar um Valdeci. Isso faz com que sempre tenhamos que chamar ajuda externa quando alguma coisa em casa quebra ou começa a fazer barulhos estranhos.

Alguém pode conhecer mais de um Valdeci? Claro. Aliás, é até melhor. Revezando os chamados, diminui-se aquela sensação mista de incômodo, constrangimento e estupidez que vem junto com o Valdeci. Tenho amigos que dividem os Valdecis por especialidades: o eletricista, o mecânico, o técnico de eletrônicos…

Os detratores dos Valdecis argumentam que os serviços prestados de forma amadora por estes simpáticos faz-tudos tiram uma fortuna das empresas de assistência técnica. Intriga dos vermes do capitalismo, com certeza. De fato, os Valdecis nos fazem economizar um dinheirão – mais por nos livrarem das trapaças da assistência técnica (R$ 50 pela visita, mais R$ 40 por um conserto simples…e, claro, vai quebrar de novo muito antes do que imagina) do que por intenção – e nos poupam de inconvenientes como ter que passar longos dias sem o aparelho quebrado ou escovando os dentes no tanque porque a pia do banheiro está entupida.

Há quem defenda a teoria de que os atuais “caras do computador” – aqueles nerds que resolvem todos os nossos problemas relacionados à informática – são uma nova classe de Valdecis. Raciocínio lógico, mas equivocado. O Valdeci ignora como operar um computador, e acha coisas como MP3 e e-mail maravilhosas demais para tentar compreender.

Mas não desperdicemos uma linha de pensamento tão boa: os “caras do computador” são o mais próximo que poderemos chegar dos Valdecis da informática. Uma nova geração de Valdecis, mais especializados. Vejam vocês, até eles estão se especializando.

09/11/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Crônica de uma faringite

Estoy a oír: Robin Sparkles – Sandcastles in the Sand

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“Adorei sua blusa.”

O pedaço de papel caiu sobre o livro que Andréa estava lendo, pouco depois que as portas do metrô se fecharam. Num primeiro momento ela se sentiu compelida a ignorar, pensando que fosse mais um vendedor de balas oferecendo seus produtos.

Porém, a frase escrita em caligrafia obviamente apressada era algo completamente diferente. Levantou os olhos do livro e viu um simpático rapaz, vestindo jeans e uma camiseta dos Simpsons, equilibrando uma caneta e um bloco de papel numa das mãos enquanto se segurava com a outra.

Sem saber muito bem como reagir, ela balbuciou um “obrigada”, mas logo percebeu que seu admirador talvez não pudesse ouvi-la. Por um momento desejou ter prestado mais atenção ao breve curso de Libras que fizera na faculdade.

Não parecia ser o caso, já que ele sorriu e logo se pôs a escrever novamente.

“Garganta inflamada. Pode falar, te escuto perfeitamente.”

– Ah, tá – ela respondeu sorrindo, o que o motivou a escrever de novo.

“A propósito, belo sorriso.”

– Obrigada – à resposta, seguiu-se mais uma exibição do elogiado sorriso.

“Indo pra faculdade?”

Ela passou um instante se perguntando como ele tinha percebido, até concluir que se devia aos dois cadernos que Andréa trazia entre o livro e o colo.

– Isso mesmo.

“Que curso você faz?”

– Psicologia, terceiro semestre. Você faz faculdade também?

Com um balançar de cabeça, o rapaz negou.

“Formado faz tempo já”, ele escreveu, e assim que deu o bilhete para Andréa começou a trabalhar em outro. “Publicidade.”

Sacou da caneta para escrever algo mais, mas uma súbita freada do trem mudou suas prioridades imediatas.

Andréa não pôde deixar de reparar na expressão assustada que o rapaz fez logo antes de perder o equilíbrio, sendo forçado a se segurar com as duas mãos para não cair. Por um momento ela pensou em Charles Chaplin, questionando se o fato de não poder falar havia acentuado a expressividade de seu interlocutor. Teve que se conter para não rir.

– Paramos para aguardar a movimentação do trem à frente – anunciou a voz monocórdica do condutor. Enquanto isso, o rapaz se pôs de pé novamente, procurando se manter impassível. Andréa adotou uma expressão algo preocupada.

“Espero que ele não faça isso de novo”, escreveu, desenhando uma carinha feliz logo abaixo das palavras para deixar claro que ele não estava irritado.

– Ou que pelo menos avise antes. Tudo bem com você? – ela perguntou, enquanto o trem voltava a se mover.

“Tudo ótimo, foi só o susto.”

– Que bom.

“Não tinha reparado nos seus olhos. Azuis.”

– Eu sei que meus olhos são azuis – ela disse, sorrindo – Afinal, eu nasci com eles. E um monte de gente tem olhos azuis. Todo o elenco do Senhor dos Anéis, por exemplo.

A resposta sarcástica desagradou ao interlocutor de Andréa, que fez uma cara entre irritado e triste.

– Desculpa – ela disse, já que não podia desenhar carinhas felizes depois de suas palavras – É só que… droga, por que as pessoas têm que agir como se tivessem visto a Virgem Maria toda vez que topam com um par de olhos não-castanhos?!

“Olha pelo lado bom”. Antes mesmo que Andréa pudesse perguntar qual era o lado bom, outro bilhete lhe era entregue. “Há 500 anos, provavelmente gritariam ‘Bruxa! Bruxa!’ e te queimariam numa fogueira.”

– Sério que podiam me queimar só por que meus olhos são azuis?

”Talvez. Se você pesasse o mesmo que um pato.”

Para sorte do rapaz da garganta inflamada, Andréa era o tipo de garota que entende referências a Monty Python. Bem, o fato da blusa que ele elogiara reproduzir uma tira do Calvin era um forte indício disso.

“Agora, se eles fossem amarelados ou coisa assim…” Completou a frase fazendo um gesto de decapitação, colocando a língua para fora como forma de adicionar um ar tragicômico à afirmação.

Ela confirmou sua teoria da expressividade aumentada, e notou que estava se divertindo como não fazia há muito tempo nessa curiosa conversa de um lado só. Mas não pôde deixar de se sentir curiosa para ouvir a voz de seu interlocutor.

“Adorei conversar com você, mas tenho que ir”, ele rabiscou, apontando para a porta. “Desço na próxima estação”

Diante da perspectiva de se afastarem, Andréa pensou em passar-lhe seu telefone. Entretanto, percebeu que com a garganta daquele jeito poderiam se passar dias até que ele conseguisse ligar. Decidiu tomar uma medida de efeito mais imediato.

– Eu também – ela respondeu de bate-pronto, mesmo sabendo que a faculdade ficava a três estações dali. Desceram do metrô juntos, andando a passos tranquilos. No caminho, compraram uma caixa de pastilhas para a garganta.

30/10/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Bem-vindo a Greendale, lar dos Seres Humanos

Estoy a oír: Siouxsie and the Banshees – Dear Prudence

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O meu maior arrependimento de 2012 é ter demorado demais para assistir Community.

Precisei tirar outras séries da frente (terminando minha já comentada maratona de Seinfeld, por exemplo) e, numa morosa tarde de domingo, dei o play no piloto. Os dois primeiros episódios foram chatos de doer, em grande parte porque a série estava muito amarrada aos clichês e à estrutura-padrão de sitcom…

…mas aí as coisas começam a melhorar assustadoramente.

O que tinha começado como uma série sobre um grupo estudantil logo se torna um programa que subverte e satiriza a própria estrutura da TV. O campus comunitário de Greendale não era mais um mero cenário, mas sim um microcosmo que permite contar praticamente qualquer história. Temos episódios estilizados como séries investigativas, filmes de zumbi, documentários… isso fora as brincadeiras com convenções televisivas, como o episódio de flashbacks e o “bottle episode” (episódio passado todo num único cenário, normalmente para reduzir custos e/ou tempo de produção).

Essa evolução é fica fácil de perceber quando observamos o envolvimento entre Jeff e Britta. Premissa inicial e rapidamente esgotável da série, o romance entre os dois ainda é mencionado várias vezes ao longo dos episódios seguintes. Só que, enquanto isso, são apresentados vários outros possíveis relacionamentos envolvendo os dois personagens. Basta dizer que, no último episódio da primeira temporada, o que até então era um triângulo amoroso torna-se uma pirâmide amorosa. É bizarro mas faz sentido, gente.

Outro bom exemplo é Abed, sem dúvida o melhor personagem da série. A princípio um “Sheldon Cooper dos pobres”, pouco a pouco ele começa a utilizar seu conhecimento enciclopédico de cultura pop para explicar o mundo e as pessoas à sua volta. Isso faz com que ele quase sempre seja o único a entender o que está acontecendo, especialmente quando o campus de Greendale se torna uma zona de guerra ou uma animação stop-motion.

Infelizmente, essa ousadia fez com que Community passasse longe dos olhos do grande público. A audiência nos três anos de exibição foi na melhor das hipóteses mediana, talvez pela famosa preguiça intelectual do telespectador americano. Isso fez com que a estreia da quarta temporada, a princípio prevista para meados de outubro, fosse adiada para fevereiro do ano que vem – assustando ainda mais quem teme que a genialidade da série seja reconhecida tarde demais.

Mas eu me mantenho otimista com relação ao futuro de Community. Se a futura quarta temporada for mesmo a última, a série tem tudo para terminar em grande estilo. E se os deuses da televisão resolverem ser piedosos desta vez, ainda teremos muito tempo de diversão em Greendale. Talvez até mais do que seis temporadas e um filme.

11/09/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Brasil é favorito para a Copa – de 2018

Estoy a oír: Spin-Off Podcast Midseason 2012 #8 – Spin-Off Awards 2012

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Que a vitória esmagadora contra a quase amadora China não sirva de falso bálsamo aos que ainda esperam alguma coisa da Seleção Brasileira.

Pois uma vez mais a CBF usou da sua tática mais suja para fazer as pazes com o torcedor: marcar amistosos contra sacos de pancadas em território brasileiro, onde o escrete canarinho parece só jogar quando inevitável. (De seis anos pra cá o Emirates Stadium de Londres virou a casa da seleção, pelo amor de Hefesto!) O truque parece especialmente sujo se considerarmos que, apenas três dias antes, o mesmíssimo time enfrentou grande dificuldade para vencer a também pífia África do Sul.

Até minha gata Zatanna pede pela demissão de Mano Menezes a esta altura do campeonato, mas além da óbvia incompetência do técnico outros fatores pesam contra o desempenho do time. O primeiro e talvez mais forte é a entressafra de bons jogadores. Aqueles que potencialmente seriam os principais destaques da seleção caíram em desgraça depois das eliminações de 2006 e 2010: Ronaldo se aposentou, Kaká enfrenta as contusões e um técnico que adoraria mandá-lo embora do América do Real Madrid, Adriano e Ronaldinho Gaúcho afundam mais e mais sob o deslumbramento com a própria fama…

Restou chamar a boa geração de jovens que despontaram em vários clubes, mas eles ainda não são maduros o bastante para assumir tão pesada tarefa. Em tempos melhores, nomes como Neymar e Lucas seriam o que foi Ronaldo em 1994 – iriam ao Mundial para ganhar experiência, prearando-se para o sucesso em participações futuras. Hoje, porém, eles são o principais nomes de um time que parece jovem demais – mesmo sem nunca terem jogado com a camisa amarela como jogam em seus clubes. A juventude do time chega a ponto de, assistindo ao amistoso contra a Grã-Bretanha antes da Olimpíada, eu simplesmente não reconhecer metade dos jogadores em campo.

Em tempos em que a seleção passa longe de ser o bicho-papão de antigamente (perdemos da Venezuela, saco de pancadas da América do Sul! Viramos fregueses de subcentros futebolísticos como França e México!), o futebol brasileiro virou um novo Leste Europeu. É difícil identificar causa e consequência nessa relação, mas as duas coisas estão inegavelmente ligadas. Nossos clubes repatriam astros decadentes pagando verdadeiras fortunas, revelam pouquíssimos jogadores e as raras joias que surgem, além de partirem muito cedo rumo aos grandes centros, são forçadas a carregar o selecionado nacional nas costas.

A inexperiência da maioria dos jogadores leva a crer que a atual geração só deve atingir o auge na Copa da Rússia, em 2018 – o que é uma péssima perspectiva quando a seleção mais vencedora do mundo organiza um Mundial em casa. Ainda mais quando a confederação nacional parece, como já declarou um maldoso Jérome Valcke, mais interessada em vencer a Copa do que em organizá-la.

10/09/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Como Sylvester Stallone reuniu uma confraria da porrada para fazer o MELHOR FILME DO MUNDO

Estoy a oír: Psy – Gangnam Style

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Os Mercenários foi concebido por Sylvester Stallone como uma homenagem à ação testosteronizada, reunindo brucutus cujos dias de glória se confundiam com os desse estilo de filme. Fez tanto sucesso que acabou dando nova vida ao gênero – a ponto de uma continuação se tornar inevitável. Afinal, Jean-Claude van Damme e Steven Seagal não haviam aparecido, e participações maiores de Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis não são exatamente algo que desagradaria à maioria das pessoas…

Assim sendo, o Garanhão Italiano não perdeu tempo para esquematizar uma nova reunião de amigos. Trouxe Simon West (Con-Air) para dirigir, tratou de confirmar a maior parte dos nomes do primeiro, garantiu que Willis e Schwarzenegger fizessem mais cenas… e conseguiu convencer Van Damme, grande ausência do original, a participar.

A trama é simplória, como de praxe no gênero. A equipe liderada por Stallone (falando sério, alguém se importa com os nomes dos personagens?!) parte para recuperar um cofre num avião russo abatido. No retorno com o objeto, o grupo é cercado pelos seguidores de Jean Vilain (Van Damme, cujo nome do personagem eu só lembro por causa da piada cretina) e além de perder o item recuperado ainda vê um dos seus ser morto.

Muito se fala sobre a pouca importância do roteiro num filme como este, mas se não oferece nenhuma nova perspectiva sobre a condição humana nas sociedades modernas a trama também não compromete. As cenas de ação e lutas são tão competentes quanto haveria de se esperar delas, mas o grande destaque são as várias referências à carreira de cada um dos protagonistas – basta dizer que o lendário “I’ll be back” de Schwarzenegger rende duas ótimas piadas que fogem das referências óbvias à frase.

Outro dos grandes trunfos de Os Mercenários 2 é saber dosar o tempo de tela de cada um dos seus muitos astros. Com participações mais curtas, fica mais fácil equilibrar o destaque entre todo o elenco – e ainda se consegue um trunfo nas negociações para garantir a presença dos nomões do gênero.

(“Bruce, é o Sly. Vem cá, você tá livre semana que vem? Topa filmar por uns quatro dias na Bulgária?”)

Claro que isso nem sempre funciona bem; Chuck Norris tem tempo de tela suficiente para elevar seu status de lenda às alturas – inclusive citando os famosos Chuck Norris Facts, no que é talvez o melhor momento cômico do filme – mas o sumiço de Jet Li depois da sequência inicial fica no mínimo mal explicado.

Mas a principal razão pela qual Os Mercenários 2 é o MELHOR FILME DO MUNDO é que ele conseguiu deixar para trás a aura séria do primeiro e investir no que realmente importa num filme como este: diversão. Seja através da exploração cômica da violência (leia-se “Terry Crews arremessando pessoas em paredes”) ou das obrigatórias frases de efeito. Ou simplesmente pela realização do sonho de ver todos esses astros juntos num filme só – tanto que é quase inevitável sair do cinema pensando em quem poderia se unir à turma no já confirmado terceiro filme. Nicolas Cage já é certeza… será que conseguem Clint Eastwood e Harrison Ford?

21/08/2012
by Tiago R. Lima "Mad Max" Andrade
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Alguns tópicos sobre Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Estoy a oír: Prodigy – Stand Up

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Passei os meses que antecederam a estreia do mais novo Batman que minha expectativa para o filme era a mesma da final do Campeonato Paulista deste ano.

Isto porque, por mais que a possibilidade de desastre existisse, no fundo eu sabia que a chance de me decepcionar era muito pequena. (Com todo respeito ao Guarani, derrotado pelo meu amado Santos na mencionada decisão e clube do coração do amigo e brilhante escritor Alexandre Inagaki.) Hoje eu posso dizer feliz que tinha razão nos dois casos.

A esta altura imagino que todo mundo já tenha visto o filme, então imagino que não precise me preocupar com spoilers. Em todo caso, tentarei evitá-los quando possível.

• De saída, já posso declarar que O Cavaleiro das Trevas ainda é o melhor filme do Batman já feito – em grande parte pelo Coringa de Heath Ledger, mas também pelo roteiro quase todo composto de frases inesquecíveis e pelo ritmo frenético. É quase como se, sabendo que não superaria o filme anterior, Christopher Nolan tivesse resolvido se concentrar no que realmente importa: dar um encerramento à altura para sua trilogia. A exceção é a cena de abertura, tentativa quase bem-sucedida de superar a cena do assalto a banco que abre o anterior.

• Finda sua participação como Batman, dá para dizer que Christian Bale não conseguiu com o maior detetive do mundo o que Christopher Reeve alcançou com o Super-Homem ou Robert Downey Jr. com o Homem de Ferro. Ainda assim, porém, é dele a melhor representação do Batman já vista no cinema. O que não muda o fato de que, considerando a carreira de cada um como um todo, George Clooney é o melhor ator a passar pelo papel, ainda que o Batman dele seja execrável.

• Correndo o risco de ser taxado de polemista barato, lá vai: adoro os três filmes do Nolan, mas ainda não foi desta vez que vi o Batman dos quadrinhos no cinema. Muitos aspectos icônicos do personagem, como suas habilidades investigativas e a capacidade de converter vantagem (o famoso “preparo”, tão satirizado pela Internet afora) são negligenciados pela história.
Nem por isso, porém, a visão do Batman (e de Gotham, principalmente) criada pelo diretor deixa de ser interessante. Como Tim Burton já havia feito antes dele, certamente influenciará tudo que for feito com o Cavaleiro das Trevas daqui para a frente.

• Batendo um recorde até contraditório com a abordagem “Batman como ícone”, temos várias referências a momentos específicos das HQs. O Bruce Wayne alquebrado e aposentado do começo remete ao clássico O Cavaleiro das Trevas, do qual também é extraída uma divertida cena com dois policiais. Todo o arco de Bane é uma versão condensada e melhorada da saga A Queda do Morcego, não importa o quanto o quiroprata na prisão indique o contrário. Gotham sitiada e tomada por um salvador com planos escusos vem dos arcos Terra de Ninguém e O Messias, e ainda temos uma cena cômica muito boa vinda de O Reino do Amanhã.

• Extremistas desocupados têm visto o Batman de Nolan como estandarte das mais diversas propagandas ideológicas, e desta vez não foi diferente – muitos descreveram o filme como “a revolta dos 99%”. Os temas centrais da história são tão universais que é até ingênuo associá-los a qualquer momento histórico, mas é inegável que Nolan aproveitou para dar seus dois tostões sobre o atual momento da política econômica mundial.

• Anne Hathaway rouba a cena como Mulher-Gato, tanto que já se fala de indicação ao Oscar. Se ela está melhor do que Michelle Pfeiffer? Digamos apenas que essa será uma polêmica interessante para os próximos anos…

• Confesso que eu até questionei o fato de Gotham ainda ter o mesmo prefeito depois de todos esses anos (e em mandatos consecutivos, como o discurso inicial do prefeito leva a crer), mas logo resolvi que a presença do eterno Batmanuel valia essa incoerência do roteiro.

EDIT: eis que não se trata de uma incoerência, afinal – a legislação americana permite que prefeitos exerçam seguidos mandados. Basta lembrar que Michael Bloomberg ocupa a prefeitura de Nova York desde 2002.

• Michael Caine é certeza de indicação ao Oscar como ator coadjuvante (apesar do pouco tempo de tela) e a mencionada Anne Hathaway tem boas chances como atriz coadjuvante. O primor técnico também deve valer várias indicações, mas o que deve pesar mesmo é o “efeito Retorno do Rei” – ou seja, o encerramento de uma trilogia aclamada pelo público e crítica não deve passar sem ser aclamado pela Academia.

• Marion Cotillard está linda e ótima em seu papel, mas o plot twist envolvendo sua personagem foi o segredo mais mal guardado do ano. Já Tom Hardy construiu um Bane muito mais intimidador e complexo que o dos quadrinhos, com o qual parece compartilhar só o nome. A voz do personagem, o ponto mais discutido nos meses que antecederam o lançamento, me incomodou profundamente num primeiro momento – mas na terceira cena eu já nem estava mais me preocupando com isso.

• É muito provável que jamais saibamos como a trilogia iria terminar se Nolan pudesse contar com o Coringa. A adaptação literária do roteiro menciona que o vilão era mantido isolado no Asilo Arkham, foi divulgado um storyboard (quase certamente falso) mostrando-o preso em Blackgate… taí mais uma boa discussão pra mesa do bar.

• Ao mesmo tempo em que faz roteiros muito didáticos, Nolan gosta de gerar discussões com seus filmes, deixando algumas ligações de pontos por conta do espectador. Aqui, porém, as últimas cenas são muito mais óbvias que o seu habitual, o que me faz pensar que ele perdeu a queda de braço com o estúdio sobre o destino final do Batman. Não duvidem que a polêmica gerada pelo encerramento aberto de A Origem tenha exercido forte influência na decisão da Warner. Uma pena.

(A pista mais clara nesse sentido, se me permitem o spoiler, é o fato do personagem de Joseph Gordon-Levitt se chamar
“Robin” e não “Dick Grayson” ou “Tim Drake”. A cena é puro fanservice, mas é fanservice feito para atingir até quem não é fã.)

• Falando em fanservice… eu sei que os irmãos Nolan e seu fiel colaborador David Goyer repetem há pelo menos oito anos que seu Batman não se encaixaria num universo cinematográfico da DC. Mas, enquanto a Warner corre atrás do tempo perdido para fazer um filme da Liga da Justiça, custava colocar o time de futebol americano de Gotham jogando contra seus arquirrivais de Metrópolis? Chatice de fã, eu sei, mas digam se não seria espetacular!

• Em resposta à disputa cinematográfica do ano, não adianta comparar o pseudorealismo do Batman com a diversão de Vingadores. Cada um à sua maneira os dois conseguiram me agradar, cada um com uma abordagem bem diferente.  O melhor veredicto, portanto, é: quão privilegiados somos por dois dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos serem lançados no mesmo ano?