Estoy a oír: Autoramas - I Saw You Saying
Dizem que a melhor parte da viagem é voltar para casa.
Claro, quem disse isso nunca desembarcou em Cumbica às sete da manhã.
A combinação de uma noite mal dormida a bordo com mais de uma hora na fila da imigração não contribui em nada para o meu bom humor, mas felizmente consigo compensar ouvindo Frank Zappa cantar uma letra hilariamente obscena. Dezenas de pessoas caminham apressadas na mesma direção, ansiosas para pegar suas malas e deixar os últimos dólares no free shop. Nenhuma delas parece reparar em mim, assim como nenhuma delas prende minha atenção.
Bem…uma delas chama. Procurando em vão por um oficial de imigração que fale um mínimo de inglês, uma linda loira de um metro e sessenta chora copiosamente enquanto é mandada de um guichê para outro, explicando sua situação aos soluços.
Pauso o velho Frank e diminuo a velocidade dos meus passos até a loira, à espera de um momento para perguntar o que posso fazer por ela. Só quando ela se vira na minha direção, finalmente noto seus belos olhos azul-esverdeados - avermelhados pelas lágrimas, lembram o mar depois de um ataque de tubarões.
- Excuse me - ela se antecipa a mim, falando com sotaque de Nova York. Fico meio embasbacado enquanto ela pergunta se também falo inglês, e respondo com um of course carregado pelos meus cinco anos de CNA e dez de CSI.
Desconsolada, ela me pede para ajudá-la. Explica que acaba de perder o voo para Porto Alegre, completando um total de seis no-shows em dois dias - por alguma razão,a companhia aérea resolveu levá-la de NY a Buenos Aires numa louca cadeia de conexões, e a lei de Murphy encarregou-se de colocá-la num dominó de atrasos. Ela não sabe o que fazer ou para onde ir, could you help me?
Claro que posso. Ela não tem bagaem, minha única mala é a primeira a aparecer quando andamos até a esteira, e enquanto passamos pela alfândega ela ainda está nervosa, contando os périplos dos últimos dias de viagem.
Faço menção de oferecer-lhe um lenço, mas noto que usei no desembarque o último do refil que comprei ainda em Londres. Maldita rinite, penso enquanto ela caminha ao meu lado. Penso em abraçá-la e oferecer meu ombro, mas logo desisto da ideia ao lembrar que sou pouco mais do que um estranho bem-intencionado para ela. Melhor não deixá-la ainda mais nervosa, concluo, e sério mesmo que a única farmácia desse lugar fica no terceiro piso da área aberta?
Tento tranquilizá-la repetindo cada etapa do tortuoso caminho pelo qual irei acompanhá-la, como um Virgílio guiando Beatriz ao invés de Dante: check-in, emissão de um novo bilhete e uma quase inevitável espera de algumas horas até o novo embarque. Explicamos a situação no balcão da companhia comigo falando por ela na maior parte do tempo, e as lágrimas logo param.
- (snif) Obrigada. (snif) Você não vai perder seu voo ou coisa assim, não é?
- Não precisa se preocupar - respondo, confiante. - Eu moro aqui em São Paulo mesmo.
- Mas não tem ninguém te esperando? Família, namorada…
- Só um gato, que provavelmente já encheu a caixa de areia até a tampa. Mas ele sabe se cuidar - sorrio ao terminar a frase, e ela sorri também, meio encabulada. Seu rosto lentamente volta a cor normal, me fazendo perceber que ela é ainda mais bonita do que pareceu à primeira vista. - Você tem um sorriso lindo, sabia?
Ela inclina a cabeça e sorri sem jeito, enquanto repete vários thank you. Seu rosto volta a ficar vermelho, mas desta vez isso passa longe de ser um problema.
- Bem…agora é só esperar. O seu voo só sai às duas da tarde. Enquanto isso, posso te pagar um café ou coisa assim?
Sinto uma hesitação antes da resposta, o que é comumente reconhecido em várias culturas como uma negativa.
- Olha, se você não quiser…
- É só que…você tá me ajudando há um tempão e eu nem disse meu nome. Eu sou a Tanya.
- Prazer, Tiago - lembrando que o único país do Hemisfério Norte em que meu nome é comum é Portugal, decido poupá-la até mesmo do delicioso sofrimento de aprender a pronunciar “Tiago” - Meus amigos me chamam de Max.
- Eu adoraria - ela diz sorrindo, e joga seu braço em torno do meu ombro. Engraçado que eu passei tanto tempo pensando se devia ou não abraçá-la enquanto ela estava chorando que, quando finalmente acontece, demoro pra notar.
Sentamos e tomamos nossos cafés, mas nenhum de nós se preocupa em levantar da mesa. Continuamos conversando, a princípio sobre banalidades, mas nos aprofundamos em nossas vidas particulares, falando mal dos respectivos chefes e tudo o mais, sem perceber o tempo passando.
- Opa…olha só que horas são. É melhor já irmos pro embarque.
Estendo a mão para ajudá-la a levantar e caminhamos juntos, abraçados, até o corredor de embarques domésticos,quando uma funcionária mal-encarada força nossa separação. Solto-a sem dizer nada, mas minha expressão facial deixa claro que eu a seguraria para sempre se pudesse. Ela também ficaria, já que assim que a solto ela rapidamente puxa a caneta do bolso da minha camisa e escreve alguma coisa na minha mão.
- Meu Facebook. Me adiciona - e, quando eu já previa um futuro de conversas cada vez mais curtas pelo Skype, ela puxa minha cabeça para perto de si e me beija. Comigo ainda sentindo o sabor de seus lábios, ela parte, olhando para trás com um sorriso…e eu faço a viagem de volta pra casa flutuando, como sem acreditar no que havia acontecido.













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