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Bill Watterson em rara entrevista

Estoy a oír: Barão Vermelho - Meus Bons Amigos

Depois de quase quinze anos num isolamento que lhe rendeu comparações ao recém-falecido J.D. Salinger, Bill Watterson, criador de Calvin & Haroldo (aka “a maior tira da história do Universo”) deu uma rápida entrevista por e-mail ao repórter John Campanelli, do jornal americano Plain Dealer - algo digno de prêmio jornalístico, tanto que o próprio Campanelli deu algumas entrevistas depois comentando a proeza.

Enquanto nos perguntamos como ele conseguiu, segue a entrevista traduzida na íntegra.

Após quase 15 anos de separação e reflexão, o que você acha que fez Calvin & Haroldo não só atrair a atenção dos leitores, mas ganhar um lugar em seus corações?

A única parte que entendo é a que vem da criação da tira. O que os leitores levam dela diz respeito apenas a eles. Depois que a tira é publicada, os leitores trazem suas próprias experiências para ela, e o trabalho cria vida. Cada pessoa responde de forma diferente a diferentes trechos.

Eu tentava apenas escrever honestamente, e tentei fazer deste pequeno mundo um lugar divertido de se olhar, para que as pessoas parassem para ler a tira. Isso era tudo em que eu podia interferir. Você mistura vários ingredientes, e de vez em quando a química acontece. Não posso explicar porque a tira teve tamanha repercussão, e não acho que poderia repetir esse sucesso. Muitas coisas teriam que dar certo ao mesmo tempo.

O que você acha do legado da tira?

Bem, eu não fico acordado até altas horas pensando nisso. Os leitores sempre decidem se o trabalho é significativo e relevante para eles, e eu posso viver com qualquer conclusão a que eles cheguem. Novamente, minha parte no processo termina quando a tinta seca.

Os leitores se tornam amigos dos personagens, então é compreensível que eles tenham lamentado - e que ainda lamentem - o final da tira. O que você tem a dizer a essas pessoas?

Não é tão difícil de entender quanto as pessoas fazem parecer. Depois de dez anos, eu basicamente tinha dito tudo o que tinha a dizer.

É sempre melhor sair cedo da festa. Se eu tivesse seguido com a popularidade da tira e repetido minhas idéias por outros cinco, 10 ou 20 anos, as pessoas que agora “lamentam” o fim de Calvin & Haroldo estariam desejando minha morte e amaldiçoando os jornais por insistirem em tiras velhas e tediosas em vez de dar uma chance a talentos mais novos. E eu concordaria com elas.

Acho que um grande motivo para Calvin & Haroldo ainda ter público hoje é que eu escolhi não forçar a tira além do seu limite. Nunca me arrependi de ter parado quando parei.

Como seu trabalho tocou muitas pessoas, os fãs sentem uma conexão com você, como se te conhecessem. Eles querem mais do seu trabalho - mais Calvin, uma outra tira, qualquer coisa. É realmente um relacionamento de astro do rock e fã. Devido à sua aversão por atenção, como você lida com isso, mesmo hoje em dia? E como você lida com o fato de que terá que conviver com isso pelo resto da vida?

Ah, a vida de um cartunista de jornal - como eu sinto falta das groupies, das drogas e dos quartos de hotel destruídos!

Mas desde meus dias de astro do rock, a atenção pública diminui um bocado. Em tempo de cultura pop, os anos 90 foram há eons atrás. Acontece de aparecer um maluco ou outro, mas na maior parte do tempo eu sigo com minha vidinha quieta e faço meu possível para ignorar o resto. Tenho orgulho da tira, sou enormemente grato pelo seu sucesso, e muito grato às pessoas que ainda a lêem, mas eu escrevi Calvin & Haroldo por volta dos meus 30 anos, e estou muitas milhas além disso.

Um trabalho de arte pode parar no tempo, mas eu sigo através dos anos como todo mundo. Acho que os fãs mais fervorosos entendem isso, e se sentem à vontade para me dar espaço para seguir com minha vida.

Quanto tempo depois dos Correios lançarem o selo de Calvin você vai enviar cartas com um deles no envelope?

Imediatamente. Vou subir no meu cavalo-buggy e mandar um cheque para pagar pela minha assinatura do jornal.

Como você gostaria que as pessoas se lembrassem daquele garotinho de seis anos e seu tigre?

Eu voto em “Calvin & Haroldo, a Oitava Maravilha do Mundo”.

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2 Comments on “Bill Watterson em rara entrevista”

  1. #1 Ulisses Adirt
    on Feb 15th, 2010 at 5:06 pm

    Leio isso logo depois de bater no Salinger… Por mim, não há comparação, nem contando o desaparecimento.

    [Responder]

  2. #2 Nadia
    on Feb 17th, 2010 at 1:45 pm

    É como se diz: “preste atenção no conto, não no contista”.

    [Responder]

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